quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

DIZER POESIA

O professor Rui Féteira dinamizou duas oficinas sobre Dizer Poesia com alunos de Línguas e Humanidades do ES da Escola Cristina Torres.

Os alunos tiveram oportunidade de, num primeiro momento, refletir sobre a arte do diseur, a postura, a necessidade ou não de memorizar o poema, a importância da voz e do corpo, a importância de se deixar “encantar” pelo poema e de fazer leituras sucessivas visando o aperfeiçoamento.

Na segunda parte da oficina, decorreram atividades práticas em que os alunos, aos pares ou em pequenos grupos, procuraram formas de dizer o poema, tendo em atenção o ritmo, as pausas, a postura, o movimento e a expressividade.

No final, todos os intervenientes se mostraram muito animados com a atividade, pois foi feita uma exploração diferente e motivadora a um conteúdo nem sempre fácil de abordar.

Estas duas sessões, a 12 e a 18 de fevereiro de 2020, decorreram na Biblioteca Escolar da Escola Secundária de Cristina Torres. A atividade foi dinamizada pelo Clube de Leitura, que muito agradece a disponibilidade ao professor Rui Féteira, professor de Filosofia e também elemento do Clube de Teatro da escola. Rui Féteira é um poeta conhecido e reconhecido, com vários livros de poemas e um livro de contos publicados sob o pseudónimo de Rui Miguel Fragas.

 

 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

5' a LER

Em parceria com a Biblioteca Escolar, o Clube de Leitura dinamizou, ao longo do primeiro e do segundo período, a atividade 5' a Ler.
Todos os dias, na primeira aula da manhã, as turmas ouvem o professor ler um excerto de uma obra. Não demora mais de 5 minutos, mas serve para arrancar o dia com uma chamada de atenção para os livros, para as palavras e para a força que elas encerram.
A seleção dos excertos é uma cuidada escolha das três professoras de Português que dinamizam o Clube, com o objetivo de ir ao encontro do gosto de todos os alunos.

FEVEREIRO

15ª SEMANA
5’ a ler é uma iniciativa da BE com a colaboração do Clube de Leitura. São uns minutos a ler, na primeira aula da manhã, todos os dias.

TEXTO 65 / 3 fevereiro 2020 (segunda-feira)
Ou isto ou aquilo






5




Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

10







15
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles, Ou isto ou Aquilo

Amar os livros


Miguel de Carvalho é livreiro antiquário na Figueira da Foz.
A convite do Clube de Leitura, apresentou uma sessão na Escola Cristina Torres sobre as suas atividades como livreiro antiquário, escritor, poeta, colagista. O comércio do livro funciona a par com a criação: Eu não sou escritor, mas a linguagem fascina-me. Do artista, veja-se A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero (romance collage de 2017), Neste estabelecimento não há lugares sentados (2016), No princípio não era o verbo (2015), ou ainda a capa do livro de Mário Cláudio, Astronomia (2015), obras de que, generosamente, falou ao público de Línguas e Humanidades dos 10º, 11º e 12º anos, na tarde de 17 de dezembro.


Leituras de aniversário

O Clube de Leitura da Escola Cristina Torres associou-se às comemorações do 33º aniversário da escola, no dia 25 de novembro.

Uma “Leitura com bolos” animou o espaço da biblioteca escolar, ao fim da tarde, das 18 às 19 horas, com lendas, poemas do folclore alhadense, livros infantojuvenis e uma evocação da patrona, Cristina Torres, uma mulher figueirense que tanto se bateu pela educação.

Os participantes foram alunos do 7º, do 10º e do 11º ano e ainda o grupo dos cantadores e tocadores do Rancho Folclórico Ateneu Alhadense. Chá e bolos encerraram a tertúlia, que contou com a presença de pais, encarregados de educação, professores e do Diretor do AEFN.

sábado, 28 de setembro de 2019

Conta lá a história das bibliotecas itinerantes

Às vezes, dou por mim a falar nisso perante uma plateia que me olha como se estivesse a dar notícias de um mundo meio real, meio imaginário. Não preciso de pensar muito no que estou a dizer porque, por preguiça, utilizo quase sempre as mesmas palavras, basta-me seguir o desejo de exotismo que encontro nos olhos que me fixam. Então, parece-me, sou um pouco como aqueles escritores africanos ou sul-americanos a quem se exige episódios coloridos, personagens singulares, anedotas, contos com moral.

Ainda assim, cada vez mais raramente, acontece estar alguém na sala que também conheceu essas bibliotecas, que também lá esteve. Então, de repente, as palavras voltam a ganhar significado, enchem-se. Ouço essa pessoa contar as suas memórias e, durante aquele instante, somos irmãos no olhar. As descrições têm préstimo, mas há uma presença muito mais funda, invisível, há a certeza de que, afinal, aquele tempo e aquele lugar existiram mesmo. Até eu já começava a duvidar.

As fitas adesivas coladas nas lombadas eram reais.

Uma vez por mês, ao fim da tarde, a carrinha Citroën chegava ao terreiro de Galveias, calhava-nos as quartas-feiras. Ficava estacionada em frente da cooperativa. Em Galveias, depois do 25 de Abril, o clube dos ricos passou a sede da cooperativa. Quando eu chegava, vindo dos lados do São João, já havia outros rapazes e raparigas à volta da carrinha.

Impressionava-me a quantidade de livros. Precisava de me esticar para chegar às prateleiras mais altas e, por isso, parecia-me que não tinham fim. O senhor Dinis conduzia a carrinha, recebia os papéis preenchidos com os códigos dos livros que requisitávamos, foi então que aprendi esse verbo, e era dentista. Eu conhecia-o da sala de espera, aquele cheiro antissético, onde aguardava a minha mãe e as minhas irmãs. Encontrei-o no ano passado na biblioteca de Abrantes, tirámos uma fotografia juntos. Aproveito para lhe enviar um abraço. Espero que esteja a ler estas palavras, com saúde.

Levávamos sempre a quantidade máxima de livros. E, sim, é verdade aquilo que costumo dizer: líamos muito depressa os que tínhamos e, depois, íamos trocando entre nós até ao regresso da biblioteca no mês seguinte.

Esse era também o tempo das sessões de cinema do Inatel no centro paroquial e na casa do povo. Foi dessa forma que, em Galveias, desci a ladeira, passei pela travessa da fonte e cheguei a casa com o rosto incendiado pelo Apocalipse Now. Foi também assim que assisti ao Baile, de Ettore Scola, sentado em cadeiras de tábua dura exatamente como aquelas em que assistia a bailes no salão da sociedade filarmónica. Poderia agora dar muitos outros exemplos.

Conheço as crianças de Galveias. Há dois anos, estive na escola onde também eu aprendi a ler e vejo-as na rua quando lá vou. No entanto, se quero identificá-las, tenho de perguntar-lhes quem são os seus pais. Nos sábados de manhã, ouve-se muito menos crianças a brincar do que no meu tempo. No ano passado, na minha terra, morreram mais de cinquenta pessoas e nasceram apenas duas.

As crianças de Galveias são iguais às de antes. Sinto pena que tenham menos do que eu tinha há quase trinta anos. Não se evoluiu. Na formação e na vida, a televisão não substitui a leitura e o cinema.

Ao falar de bibliotecas itinerantes aos meus filhos ou a essas crianças, sinto que sou como o meu pai quando me contava histórias da sua infância. Eu sabia que se tinham passado com ele mas, para mim, esse conhecimento era muito vago, pareciam lendas. No entanto, esse tempo era tão concreto como este. Um dia, este tempo, hoje de manhã, ontem, este preciso momento, será contado pelos meus filhos e por essas crianças com o mesmo tom com que agora falo de bibliotecas itinerantes. Naquele tempo, dirão. E aquele tempo será isto, tão concreto, tão prosaico, tão isento de magia. Estes objetos sem graça serão esse incrível futuro.

Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá, a cheirar aqueles livros, a subir para a carrinha, a escutar a voz do doutor Dinis. Por isso, ainda que use as mesmas palavras até à exaustão, hei de continuar a repetir esta história. Sempre. É a minha história.

Peixoto, José Luís, in Visão, 31/03/2014

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Transforma-se o assassino na coisa assassinada


Tenho educado as minhas filhas para evitarem o adultério, a perda de sentidos e o amor. Sobre a droga não tenho dito nada, porque me parece menos nociva.

De acordo com o jornal i, o Supremo Tribunal de Justiça considera que o Tribunal da Relação de Guimarães não teve em conta que o assassino de uma mulher amava a vítima. É a última de uma série de decisões judiciais recentes que indica que, em Portugal, as mulheres não podem ser espancadas (a menos que sejam adúlteras), não podem ser violadas (a menos que estejam inconscientes) e não podem ser assassinadas (a menos que o assassino as ame). À cautela, tenho educado as minhas filhas para evitarem o adultério, a perda de sentidos e o amor. Sobre a droga não tenho dito nada, porque me parece menos nociva.

O caso é o seguinte: o tribunal de Guimarães condenou o homem a 13 anos de prisão. O Supremo determinou que a sentença devia ser reapreciada porque se, como mantém a defesa, “o arguido nutria muito amor pela vítima”, o crime terá pena até cinco anos de prisão. Entretanto, o assassino saiu em liberdade, por ter cumprido o máximo de dois anos de prisão preventiva. A ideia de que o amor pela vítima diminui a pena interessa-me muito, sobretudo na medida em que pode constituir um incentivo para tornar o mundo melhor. Jesus disse: “Ama o próximo como a ti mesmo.” É uma recomendação difícil de seguir, ou até desaconselhável, no caso de pessoas que tenham a minha autoestima. Se o Messias me pede para amar os outros como a mim, passo pela vida sem amar ninguém, o que é triste. Mas a lei portuguesa é superior à lei de Cristo: “Ama o próximo como a ti mesmo, porque isso garantir-te-á uma pena menor quando o matares.” Assim sim, o amor floresce, porque as pessoas reagem melhor à ideia de recompensa. Eu sinto-me muito mais motivado para amar gente. “Amor é fogo que arde sem se ver” é um bom decassílabo, mas “amor é desculpa para matar” não lhe fica atrás. E quem diz matar diz roubar. O amor é cego e não escolhe crimes. Se estrangular a pessoa amada, por oposição a estrangular um desconhecido que não se ama, tem redução de pena, roubar o nosso grande amor também devia beneficiar da mesma espécie de amnistia. O que significa que os tribunais terão de ser benevolentes comigo se eu alguma vez roubar o Benfica. Logo por azar, é dos crimes que menos me apetece cometer.

(Crónica de Ricardo Araújo Pereira, publicada na VISÃO 1342, de 22 de novembro de 2018) 

In visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujo-pereira/2018-11-29-Transforma-se-o-assassino-na-coisa-assassinada 

(consultado em 16.09.2019)

Andar de cavalo a ver a flor

O senhor Hua Han tinha um amigo chamado Gui Liang, que era coxo. Como Hua Han era um bom casamenteiro, o amigo pediu-lhe o favor de procurar uma rapariga jeitosa, pois queria casar. Por coincidência, Ye Qing, uma menina de nariz muito torto, falou também com Hua Han para lhe encontrar um noivo.

Hua Han pensou: "Se conseguisse fazer o casamento entre estes dois, seria ideal.”

Então o casamenteiro pediu a Gui Liang que passasse por casa de Ye Qing, mas a cavalo. E pediu a Ye Qing que, quando o pretendente aparecesse, pegasse numa flor, fingindo que estava a cheirá-la.

Assim, ela apaixonou-se pelo garboso cavaleiro e ele ficou todo encantado com a bela e delicada menina que cheirava uma flor.

Segundo os hábitos da época, o casamenteiro e as duas famílias começaram a tratar dos preparativos para a grande festa e os noivos só se voltaram a encontrar no dia do casamento.

Quando se viram sem disfarces, ambos perceberam por que razão um andava a cavalo e a outra cheirava a flor.

Contos da Terra do Dragão, rec., adapt. e trad. de Wang Suoying e Ana Cristina Alves, Ed. Caminho, 2000

Novidade

Leitura para férias

Um livro da Editorial Presença, que está na nossa BE com o número 15006. O Clube de Leitura recomenda vivamente este livro: s erá uma exce...